O Novo Velho Rádio

A criança de amanhã (hoje) despreza o rádio?

Por Luiz Seabra
Em 2001 participei de um congresso interno do Sistema Globo de Rádio onde a discussão era o futuro do veículo no Brasil. Nos vários debates que tivemos, uma preocupação: a criança não estaria ouvindo o rádio como antes. A meninada tinha olhinhos atentos aos jogos eletrônicos e as cores e atrações dos programas de TV de Xuxa, Chaves e Angélica. Agora os pequenos adultos ficam de cara com a internet, e o YouTube parece ser a ferramenta preferida.  Mas a criança de amanhã (hoje) despreza o rádio?
 
Nesse mesmo fórum, tive a oportunidade de ouvir a palestra do professor João Lang e dela extrair o que é de mais essencial na comunicação e nos mais diversos empreendimentos profissionais: o romper dos limites. Muitas vezes deixamos de fazer muita coisa por nos faltar impetuosidade, independência, visão, conhecimento, arrojo etc.
 
Em um dos intervalos do simpósio, saímos todos em passeio de escuna para conhecer as belezas da região. Naquele paraíso fluminense a embarcação foi desligada em uma determinada ilha, deixando de fluir. (Uso a expressão fluir porque o mar calmo de Angra muitas vezes despreza âncora para estacionar). Daquele ponto partiram a nado noventa por cento dos colegas em direção a uma pequena ilha, a mais ou menos 25 metros do barco. E como eu fazia parte do grupo respirei fundo até chegar ao destino. O problema foi a volta.
 
Afinal, eu não contava que a visita fosse tão rápida, rápida ao ponto de não ter fôlego para retornar com segurança. Mesmo com 33 anos de idade não consegui chegar até o barco e a solução foi apelar para gritos desesperados de socorro. Mas os gritos eram mudos. Ninguém escutava absolutamente nada com as potentes caixas de som ligadas na Rádio 98 FM, do Rio de Janeiro. Ainda bem que as almas estavam de plantão naquele sábado,. Diante da agonia, um colega de São Paulo, que havia percebido que minhas braçadas mais se pareciam com as desengonçadas pernas de um hipopótamo, resolveu silenciosamente sair depois de mim para, enfim, empurrar-me até a escada do barco. (Infelizmente não consigo me lembrar o nome daquele anjo).
 
Com o susto larguei de vez o vício para nunca mais voltar a fumar.

Nos debates de hoje, muitos anos depois, leio e ouço que o rádio se atracou ao tempo pretérito. Poucas são as emissoras que dão lucro. Que o rádio, além de ser moeda política, estaria mais voltado para estímulos religiosos e cada vez mais a serviço do chamado caixa dois. E que no final das contas, os adultos de agora estariam paralisados à disposição das mídias TV e internet.

Porém, como num baile de máscaras, o rádio ganhou cara nova. Agora celulares e smartphones são os rádios de pilha do século passado, que alguns ensandecidos jogavam nas costas dos bandeirinhas em dias de jogos de futebol.

Por falar em futebol, há muitos anos que veículos grandes e médios transmitem clássicos e partidas pegando carona, descaradamente, nas transmissões da TV; poucas são as emissoras que enviam equipes de verdade para cobrir de fato uma autêntica transmissão voltada exclusivamente para o rádio. E cada dia que passa até as maiores emissoras estão apostando em um número de profissionais menor em seus times.

Já nas pequenas e médias emissoras o que impera é a sublocação do espaço esportivo para alguns aventureiros. Gente com entusiasmo e um número sem fim de pequenos patrocinadores…

Com relação as grandes e empolgantes transmissões esportivas, será preciso esperar a substituição de vários cartolas no seio do esporte bretão para que se possa ter novos formatos na comercialização, via rádio.

(Quem leu “Organizações Exponenciais” – Singularity University, talvez tente montar um esquema Netflix para distribuir o mesmo sinal a várias emissoras ao mesmo tempo nas transmissões jornalísticas e esportivas).
E esse será talvez um caminho sem volta…
 
Quanto a reinvenção, o rádio deixou de ser protagonista por não querer apostar em grandes nomes e em conteúdo para ter vida própria. Os maiores profissionais do país migraram para a publicidade e para outros setores da economia; enquanto isso, a facilidade de retransmissão de outros sinais nas chamadas redes e a preguiça empresarial diante da distribuição política de concessões de rádio, contribuem para a decadência do veículo.
 
Mas, não há mal que tanto dure nem bem que nunca se acabe… Vem aí uma nova fronteira da comunicação, com base em algoritmos e sonoridades matemáticas. Quem continuar a pensar na linearidade das coisas vai se surpreender. É a comunicação exponencial, amigo leitor.

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