Âncora de telejornais

Dos temas já abordados neste site este é, com certeza, o mais sugestivo.

Por Luiz Seabra

Iniciei como apresentador de telejornal, na Radiobrás, depois que Juca Silveira, um dos homens mais respeitados do país quando o assunto é comunicação (sensibilidade), me levou para fazer um teste na TV Nacional. Juca, então diretor de programação da antiga Empresa Brasileira de Notícias, de cara apostou que eu poderia compor a bancada de um novo telejornal da emissora. No cenário seriam quatro apresentadores: Luis Santoro, Kátia Maranhão, Claudio Lessa e eu; e o editor-chefe o jovem e renomado jornalista Antônio Augusto. Para os padrões da época era o jornalismo possível, transmitido em rede pela TVE do Rio de Janeiro. (Afinal, nunca foi fácil falar totalmente a verdade em veículos de governo, ainda mais na ditadura militar). 

Mas cometer uma grande gafe logo na estreia do jornal não fazia parte do script. Diante daqueles profissionais e da parafernália eletrônica, o jornal ia bem até a última nota. A famigerada lauda era sobre um confronto no mundo árabe e informava também os valores do barril. Eis que leio em alto e bom som “óleo CU da Arábia Saudita” em vez de “óleo CRU da Arábia Saudita”…

Nervoso, continuei a nota sem uma desculpa sequer, sentindo nos músculos das costas arrepios e no ouvido ruídos e risos de câmeras, apresentadores e de toda a vizinhança deste e do outro mundo. Quando terminei a notícia e mandei um BOA NOITE, achei que minha carreira tinha começado e terminado no mesmo dia.

Na saída do estúdio onde quase todos riam ou faziam caras e bocas encontrei-me com Juca Silveira que, delicadamente, não tocou no assunto, me dando apenas parabéns pela estreia. Juro que fiquei surpreso por continuar com aquele extraordinário grupo de jornalistas apresentando o telejornal.

O melhor mesmo é quando o tempo e sua borracha nos ajudam: alguns anos depois consegui ser o primeiro âncora do maior telejornal da emissora, o Rede Brasil Noite.

Quebrando a cara

Nessa mesma época, eu também trabalhava na TV Globo Brasília como locutor de chamadas e de cabine. Nos corredores Pedro Rogério, Alexandre Garcia, Carlos Monfort, Antonio Brito, Carlos Henrique, Leonel da Matta, Toninho Drumond eram nomes que incendiavam as minhas aspirações profissionais. Claro, como locutor de cabine da programação da vênus platinada eu estava no departamento errado da emissora. Pois eu já me via como âncora da emissora.

Mas o Rio de Janeiro era a praça a ser alcançada, e tanto fazia a Globo ou a recente TV Manchete. Ah, acompanhar os grandes ídolos do telejornalismo brasileiro como Carlos Campbell, Sergio Chapellin, Ronaldo Rosas; os falecidos Berto Filho e Eliakin Araújo… E não era acompanhar somente, era trabalhar lado a lado, viver o mesmo glamour, deferência, respeitabilidade, sucesso. Já pensou estar na roda do uísque, do pôquer, do tênis, com essas feras???

Eis que a sorte dá o seu jeito de me levar para o Rio de Janeiro muito antes do previsto por indicação do amigo Luis Santoro, apresentador de telejornais da TV Manchete desde a estreia da emissora. E lá fui eu para a cidade maravilhosa de mala e cuia.

PS: Inebriado pela oportunidade, não levei em consideração as palavras do amigo Santoro sobre o diretor de jornalismo da TV Manchete.

– Toma cuidado com esse MC.

Mas nada mesmo poderia me fazer recusar aquela oportunidade, nem mesmo o convite do jornalista Lauro Diniz, diretor de jornalismo, da TV Globo Minas para apresentar o jornal local de Belo Horizonte, nos estúdios da Rua Rio de Janeiro.

O sucesso antes do sucesso ensina muitas coisas. E foi como bon vivant e prático das noites de jazz, do whisky e do vício de um cigarro atrás do outro que as coisas, de fato, não se concretizaram como nos sonhos do garoto Luiz Adriano.

Aos 28 anos, casado desde o 21, pai de dois filhos, sem sequer ter frequentado uma universidade, o trabalho sobrevivia apenas do talento. Não passava na cabeça do jovem babão que era preciso administrar a carreira que já me confiavam. O fato de fazer parte de um grupo seleto de jornalistas na Rede Manchete do Rio de Janeiro, ali no quarto andar da sede central da mais incômoda e sensacional televisão brasileira, já era o futuro em forma de presente. E como todo garoto sem as escalas devidas do amadurecimento – igual jogador de futebol – vivi os dias mais saudosos da vida.

Mas você leitor que me acompanha até agora, imagine apresentar telejornais na poderosa Rede Manchete, ser o titular do jornal local Rio em Manchete, apresentar o Manchete Rural, prêmio de melhor programa rural do Brasil, desbancando o antigo Globo Rural, ser indicado para apresentar os maiores telejornais da emissora em finais de semana e férias dos titulares… Eu nunca poderia ter imaginado que iria conviver e trabalhar de fato com Leila Richers, Leila Cordeiro, Eliakin Araújo, Ronaldo Rosas, Leda Nagle, Ana Maria Badaró, Jacyra Lucas. Era tudo um desbunde, uma grande curtição.

E foi na mítica Rede Manchete que o futuro – o verdadeiro – me cutucava, e me cutucava sem parar.

Amiga...

Lembro que a empresa em função do meu trabalho no “Rio em Manchete” e tão cedo já me escalando para os telejornais de rede nos finais de semana, e diante do boato (revelado pelo querido Ronaldo Rosas) de que a TV Globo Rio já preparava o bote de um convite, fui chamado à Revista Amiga para a seguinte proposta: Luiz Adriano deveria beijar uma nova atriz de TV em uma boite carioca; fotógrafos iriam registrar a cena do jovem casal e bombar o escândalo na revista de fofocas Amiga. Daí para irradiar nos programas de rádio e ter desdobramentos nos jornais e até na Revista Manchete era uma questão de tempo. “Garoto, o sucesso é agora, já”, disse-me a repórter da publicação…

Desconfiado, declinei da tal propaganda alegando não ter como explicar para a mãe dos meus filhos a farsa montada.

Convença-a, replicou a mesma repórter…

Diante da minha recusa e apostando que somente o talento iria me ajudar a ir mais longe resolvi bancar o NÃO… – “Você é um bocó”, me disse Mauro Costa, diretor executivo de jornalismo da Rede Manchete de Televisão. “Desse jeito não vai a lugar nenhum”, completou.

Gostaria de dividir o que aprendi nas emissoras mencionadas com o leitor, além da curiosidade de uma boa história. Mas as conquistas, os percalços e, inclusive, os bons jornais são engolidos pelo dia a dia de uma redação. Porém, tem uma passagem que deve sugerir mais atenção para quem deseja ingressar nessa fábrica saborosa de loucos.

Por uns seis meses, se não me engano, a Rede Manchete foi pioneira como emissora exclusiva de jornalismo. Tanto que apostou em suas manhãs em um telejornal que ia de 8 da manhã ao meio dia: o Repórter Manchete. Inicialmente este longo jornal foi apresentado por um profissional de nome Gilberto Ribeiro que num belo dia, ao vivo, levantou uma lauda para mostrar aos telespectadores os borrões feitos com caneta futura. Para ele, era preciso se desculpar por um erro atrás de outro. Claro, foi demitido sumariamente. Daquele dia em diante sobrou para mim a apresentação daquele telejornal inovador… Eram, como já disse, quatro horas de notícias, com alguma ou outra novidade rabiscada com a tal caneta futura, sem o apreço e a solidariedade do departamento para que aquele calhamaço de notícias pudesse efetivamente ter alguma relevância.

O telejornal não era a experiência pretendida e sonhada, mas sim um tapa buraco em uma programação que começava a dar sinais de exaustão.

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